Investigando True Detective – MFC Editorial

 

Investigando True Detective

 

MFC Editorial

 


 

No dia 13 de janeiro de 2019, HBO transmitiu o primeiro episódio da terceira temporada de True Detective, trazendo um novo mistério às telas. Com uma incrível atuação do ganhador do Oscar, Mahershala Ali (Green Book: O Guia, 2018), a temporada terminou dia 24 de fevereiro.

 

True Detective se destacou por estar envolta em um ar misterioso. Suas histórias cruas exploram o lado sórdido da condição humana, enquanto seus personagens passam por uma jornada pessoal complexa e sombria.

 

Esta última temporada não foi exceção, nos deu um arco tão intricado que deixou mais perguntas que respostas:

 

O que faz com que cada temporada de True Detective seja tão independente e, ainda assim, parte do mesmo universo? Quais processos criativos estão por trás de cada temporada? Há alguma trama misteriosa que une as três histórias em uma mesma manta?

 

No My Family Cinema decidimos abrir o caso e, sem te contar os spoilers, investiga-lo a fundo.

 

 

Elemento 1: O caso

 

 

True Detective é um dos programas de televisão de maior audiência de todos os tempos. Alcançou mais de dez milhões de espectadores, apesar de não ser audiência familiar, a série foi considerada como uma das mais ousadas da televisão.

 

Criada por Nic Pizzolatto, a primeira temporada de True Detective foi originalmente pensada como uma sequência para Galveston, o romance de estreia do escritor americano, publicada em 2010. Durante o desenvolvimento, Pizzolato percebeu que o melhor para esta nova história seria transformá-la em uma produção audiovisual. Encerrado em sua criatividade, o escritor concluiu por si só um roteiro de aproximadamente 500 páginas.

 

Com o roteiro terminado, a série ainda precisava de um diretor que a tornasse real. Ainda que o ganhador do Oscar Alejandro González Iñárritu (O Regresso; The Renevant, 2015) tivesse sido inicialmente considerado como diretor da primeira temporada, foi Cary Fukunaga (Jane Eyre, 2011) quem fez de True Detective a beleza visual que é hoje.

 

Matthew McConaughey (Interestelar, 2014) foi o primeiro ator escolhido para a série e, embora fosse considerado para o papel do Detetive Marin “Marty” Hart, McConaughey convenceu Pizzolatto a dar-lhe o do Detetive Rustin “Rust” Cohle, trazendo com ele seu amigo Woody Harrelson (Zumbilândia, 2009) para o papel de Marty. Ambos atores se tornaram produtores executivos em todas as temporadas da série.

 

Em 2012 o projeto já havia tomado a forma de uma série televisiva para HBO e em julho de 2013 as gravações já haviam terminado.

 

True Detective se tornou um dos maiores projetos da HBO, com um elenco da mais alta categoria e uma média de 11.9 milhões de espectadores por episódio. Assim, em 2014, o que originalmente seria uma minissérie, terminou como uma série antológica com mais duas temporadas a caminho, cada uma com 8 episódios, novos personagens e diferentes mistérios para desvendar.

 

 

Elemento 2: As investigações

 

 

Primeira temporada:

 

A primeira temporada nos situa em uma cinzenta e decadente Louisiana, onde os Detetives Martin Hart (Harrelson) e Rustin Cohle (McConaughey) investigam o homicídio de Dora Lange, cujo corpo foi encontrado em condições perturbadoras. Assim, os detetives mergulham em uma investigação de 17 anos que avalia seus temperamentos frente à uma rede de tráfico infantil, cultos sobrenaturais e experiências que marcariam as suas vidas para sempre.

 

Através de eventos criminais sórdidos, simbologia sombria e uma narrativa não lineal que se alterna entre os períodos de tempo, a história explora o lado mais tenebroso da sociedade e também da psique humana. Se tratando principalmente de um estudo do personagem de Rustin Cohle, papel para o qual Matthew McConaughey preparou uma análise de 450 páginas, titulado “Quatro etapas de Rustin Cohle“, a filosofia pessimista e a evolução do personagem através do caso se tornaram o tema fundamental da temporada, explorando o valor da vida, a decadência social e a futilidade da existência.

 

Nic Pizzolatto citou como fortes influências os autores Emil Cioran e Friedrich Nietzsche, cujas propostas filosóficas serviram de base para desenvolver as ideias de Rust, além de tratar também de outras noções como a religião, a masculinidade e a autoridade, através do personagem de Marty.

 

Os frequentes saltos temporais servem para nos contar três períodos diferentes do caso, com uma história que viaja de 1995 até 2012 e que trata de temas sobrenaturais inspirados nos trabalhos de autores como H. P. Lovecraft e Robert Chambers, envolvendo-se em uma aura de mistério que prende os espectadores.

 

A Primeira temporada de True Detective ficou na história como uma das melhores propostas audiovisuais, sendo considerada uma obra de arte pelos espectadores e a crítica especializada.

 

 

Segunda temporada:

 

A segunda temporada é protagonizada por 4 personagens: o Detetive Ray Velcoro, interpretado por Colin Farrell (Animais Fantásticos e Onde Habitam, 2016), um funcionário corrupto que luta com um passado obscuro; a Detetive Ani Bezzerides, interpretada por Rachel McAdams (Doutor Estranho, 2016), cujos problemas familiares costumam se meter em seu trabalho trazendo consequências catastróficas; o oficial Paul Woodrugh, interpretado por Taylor Kitsch (X-Men Origens: Wolverine, 2009), um patrulheiro e veterano de guerra que lida com sérias acusações; e Frank Semyon, interpretado por Vince Vaughn (Dragged Across Concrete, 2018), um ex-chefe da máfia cujos esforços para passar ao negócio legal está em risco. Os detetives, todos de departamentos policiais diferentes, unirão suas investigações para desvendar o assassinato de Ben Caspere, vereador da cidade fictícia de Vinci, em Califórnia, e colaborador de Frank Semyon, que perdeu todo seu dinheiro e influência devido ao ocorrido.

 

Desta vez, é narrado uma história de apatia através de personagens com psicológicos abalados, que se dedicam a descobrir uma trama de corrupção que chega as altas esferas de poder. Com uma narrativa mais direta, a segunda temporada de True Detective emprega recursos como o presságio e sequências de ação para explorar as crises e inseguranças de personagens emocionalmente vulneráveis, em uma história aonde a maldade sempre ganha.

 

Depois de três anos de dedicação ao roteiro da primeira temporada, o que resultou em uma obra de grande qualidade, HBO deu apenas um ano a Nic Pizzolatto para completar o roteiro da segunda temporada de True Detective. Diferente do primeiro projeto, Pizzolatto não conseguiu terminar o roteiro sozinho em tão pouco tempo, motivo pelo qual ele convidou o novelista Scott Lasser para completá-lo. Cary Fukunaga não voltou a dirigir este novo lançamento e deixou a responsabilidade nas mãos de diversos diretores, embora tenha permanecido como produtor executivo da série.

 

Devido a isso, como a temporada estava explorando a evolução do dobro de personagens na mesma quantidade de episódios, a segunda parte parece fragmentada, sem uma meta precisa, o que deixou a audiência insatisfeita, já que esperava algo similar ou superior à primeira temporada.

 

 

Terceira temporada:

 

Apesar da fraca recepção que a segunda temporada teve, a última temporada de True Detective recebeu muitas críticas positivas, sendo considerada como uma volta às raízes. Desta vez, Nic Pizzolatto não só atuou como roteirista, como também showrunner e fez sua estreia como diretor. Ao mesmo tempo, um envolvimento maior de Cary Fukunaga, diretor da primeira temporada, fez com que se sentisse mais próximo ao estilo inicial.

 

A terceira temporada de True Detective se passa em Ozark, uma região montanhosa entre os estados de Missouri, Arkansas e Oklahoma. A história relata os detetives Wayne Hays, interpretado pelo ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Mahershala Ali, e Roland West, interpretado por Stephen Dorff (Massacre no Texas, 2017), que irão investigar a desaparição de duas crianças na floresta. Se une aos detetives Amilia Reardon, interpretada por Carmen Ejogo (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, 2018), professora de uma das crianças e futura esposa de Hays, e seu filho, Henry Hays, interpretado por Ray Fisher (Liga da justiça, 2017), como os personagens indispensáveis para o desenvolvimento da trama.

 

Similar à primeira temporada, esta nova história salta entre 3 épocas diferentes: 1980, 1990 e 2015. Em cada época, veremos o lento progresso do caso e, principalmente, como o desenvolvimento dos personagens se vê inevitavelmente consumido pelo mesmo. Os saltos temporais são um recurso importante para a estrutura narrativa da temporada, que, em conjunto com perda de memória que afeta Hays conforme envelhece, gera um sentimento de instabilidade como a que sofre o protagonista. Ao mesmo tempo, a recorrente e inesperada variação dos tempos dá uma sensação de simultaneidade na narrativa, a qual enriquece a experiência.

 

Um dos temas fundamentais da terceira temporada de True Detective é a memória como o fantasma mais temido. O personagem de Wayne Hays vai lentamente mergulhando no esquecimento, fazendo-o questionar seus próprios motivos para agir, e se suas lembranças são reais ou não. Não é por acaso que aparece frequentemente a leitura do poema “Calmamente caminhamos através deste dia de abril“, do poeta estado-unidense Delmore Schwartz para guiar a história, que termina com os seguintes versos:

 

O tempo é a escola na qual aprendemos,

O tempo é o fogo no qual ardemos.

 

 

Conclusões

 

 

Tendo investigado com cuidado as três temporadas de True Detective, podemos concluir que, ainda que cada uma tenha sido abordada de maneiras diferentes por seus criadores (tanto em produção como narrativamente), cada história possui algo em comum, um fio condutor que transcende cada proposta e as une em um sentido maior:

 

True Detective é uma série na qual o verdadeiro caso não é o crime que desencadeia cada história, mas sim o desenvolvimento de seus personagens em meio ao caos ao que foram jogados e do qual não podem escapar. Através de uma jornada determinada pelos eventos da investigação, o enigma que os detetives devem resolver é o de suas próprias presunções, emoções e perspectivas. É este o manto que veste as três histórias de True Detective, um criativo e árduo estudo de personagens que estão perdidos num subdesenvolvimento, abandonados em um mundo perverso.

 

A pesar dos altos e baixos, True Detective ainda é considerada como uma das melhores séries dos últimos tempos. Ainda que se trate de uma antologia, cada temporada contribuiu com uma nova proposta narrativa ao título, revelando novas perspectivas sobre a vida, ambas morais e metafisicas. Não podemos deixar de esperar que chegue uma quarta temporada, na qual podem expandir e, quem sabe, concluir definitivamente esta fantástica história.

 

Caso encerrado.